Cláudio Manoel Revela Segredos do Casseta & Planeta e Fala Sobre Humor no IS WE Podcast
Cláudio Manoel, um dos nomes mais marcantes do humor brasileiro, participou recentemente do IS WE Podcast em uma conversa descontraída e cheia de histórias curiosas sobre os bastidores do Casseta & Planeta, programa que transformou a comédia na TV nos anos 90.
Além de relembrar a trajetória pessoal e profissional, ele abordou as mudanças no cenário do humor no Brasil, os desafios da TV aberta hoje, e dividiu detalhes do processo criativo e das polêmicas que marcaram a carreira do grupo. Para quem é fã da velha escola do humor ou quer entender como funciona essa indústria, esse bate-papo é uma aula.
A Jornada de Cláudio Manoel: Dos Sonhos Vagos à Comédia
Cláudio conta que nunca teve um sonho claro de ser comediante quando criança, muito diferente do que se costuma ouvir por aí, de artistas que já sabiam seu destino desde cedo. Filho de engenheiro, ele começou a faculdade nessa área — uma opção comum para a época —, mas logo percebeu que aquilo não era para ele.
Ele passou por quatro cursos universitários diferentes: engenharia, história, economia e comunicação. Em todos teve dificuldades de encontrar uma direção fixa. O que o atraía desde jovem era mais o prazer pela leitura e pela escrita, inspirado por publicações como o Pasquim e autores como Paulo Francis e Millôr Fernandes, nomes que marcaram o jornalismo e a crítica com humor inteligente.

Durante essa fase, ele conheceu seus futuros parceiros de humor. No colégio, já era amigo de Madureira, que depois conheceu Bussunda pela família. O vínculo se consolidou em torno da paixão pelo futebol e pela cultura carioca — futebol era um ponto forte da amizade e da criação do grupo no começo.
O Humor, a Cultura e o Mercado: Mudanças e Obstáculos
Cláudio fala sobre como o humor e a carreira artística sempre tiveram um caminho difícil para quem veio de famílias tradicionais, onde o sonho era seguir alguma profissão convencional como médico, advogado ou engenheiro. Para muita gente, ser artista era quase um risco de passar fome, uma “marginalidade” social.

Esse cenário vem mudando, mas com muita lentidão. Hoje, existem mais oportunidades, mais nichos e ferramentas, mas o sucesso ainda depende muito de sorte e conexões. Ele disse uma frase que resume bem: “Filho de ator já nasce sabendo” — indicando como as portas se abrem mais fácil para quem tem contato direto com o meio.
A chegada da internet e das redes sociais transformou tudo. Antes, só as emissoras tinham câmeras e controle da produção; hoje, qualquer um pode criar, gravar e distribuir conteúdo do seu celular. Isso democratizou o acesso, mas trouxe também o lado ruim: há muito conteúdo ruim, notícias falsas, discursos extremistas e uma guerra por audiência e influência.
Para ele, isso mudou a experiência do espectador, que hoje tem mais opções e atenção fragmentada. A TV aberta, que tenta falar com todo mundo ao mesmo tempo, perdeu muito espaço para conteúdos de nicho, que falam diretamente a grupos específicos com seu tipo de humor.
Por Que o Humor Sumiu da TV Aberta?
O Casseta & Planeta chegou a seu auge na TV aberta, mas hoje o humor de TV sofreu um grande baque. Cláudio explica que o humor atual na TV aberta tem medo — medo do público, da reação rápida nas redes, do cancelamento. É difícil fazer piada que agrade todo mundo num canal que precisa reunir várias faixas etárias e opiniões.
Hoje, rir de uma piada pode ser interpretado como aprovar uma opinião, o que não faz sentido, já que a piada é uma provocação, uma surpresa, nem sempre um posicionamento do humorista. Esse tipo de confusão aumenta a autocensura na produção e a vontade de evitar assuntos polêmicos.

Além disso, antes as reações demoravam a chegar (com cartas, por exemplo), hoje tudo acontece instantaneamente, o que deixa os produtores mais cautelosos. Programas como o Zorra Total ficaram no passado e se veem difíceis de sobreviver nesse novo cenário.
O Processo Criativo e a Criação de Personagens Icônicos
A origem do Casseta & Planeta foi um encontro de dois grupos que já tinham trabalhos impressos, mas que passaram a se reunir para fazer shows e, depois, o programa na TV. O famoso disco “preto com buraco no meio” nasceu dessa junção, e apesar das polêmicas que envolveram seu nome, marcou uma produção única.
Na transição do programa mensal para o semanal em 1998, o grupo sentiu que precisava criar personagens fixos. Assim nasceram icônicos como Seu Creysson, Maçaranduba, Montanha e o cachorro Sadã. Esses personagens ajudavam a aliviar a pressão de ter sempre um conteúdo novo e serviam como “estoque” para o formato semanal.

A criação dos personagens envolvia todo o coletivo: roteiristas, atores, figurinistas, contrarregra. Seu Creysson, por exemplo, surgiu meio que por acaso, com erros de português intencionais, dente pintado, peruca e barriga falsa para compor essa figura caricata e bem-humorada.
Apesar de receber orientações da Globo, o grupo tinha muita autonomia para escrever e aprovar seus textos. Alguns temas e marcas eram vetados, mas, no geral, a liberdade criativa era grande para os padrões da TV aberta.
Histórias e Polêmicas de Bastidores
Nem tudo foram risadas fáceis no programa. Houve momentos tensos, como uma briga com torcedores na Bombonera, estádio na Argentina, quando tentaram fazer uma brincadeira com faixa em espanhol. Teve também o episódio que, indiretamente, ajudou na prisão do criminoso Elias Maluco, com histórias quase inacreditáveis que viralizaram anos depois.
Polêmicas políticas eram parte do dia a dia. Uma piada sobre uma “deputada/prostituta” causou protestos e até avaliação jurídica na Câmara dos Deputados. Na época, o programa colocou um direito de resposta na internet para tentar amenizar a situação, mas a repercussão foi grande.

Outro episódio que marcou foi uma brincadeira com o Fluminense e Romário envolvendo camisetas com frases provocativas. O clube quase entrou com ação judicial, e o programa respondeu com humor, exibindo gols do adversário para provocar a torcida. Até boatos e confusões em jogos envolvendo a equipe de humor aconteciam.
Mais do que tudo, era comum a confusão do público entre personagem e ator, o que muitas vezes levava a situações constrangedoras para os humoristas fora da TV.
Reflexões Sobre Humor, Liberdade e Julgamentos
Cláudio tem uma visão clara sobre a importância de entender que a piada não é a opinião do humorista e que rir não significa concordar com aquilo. O humor trabalha com o inesperado, com o incômodo para provocar o riso, não com posicionamentos políticos fixos.
Ele comenta sobre a facilidade com que hoje as pessoas julgam tudo, como se essa fosse a maior atividade da vida, e como é mais fácil criticar do que criar. Muitas vezes o julgamento é feito sem contexto, conhecimento ou até qualificações.

No debate sobre liberdade de expressão, ele defende a importância dela para discursos que muitos detestam, pois só assim ela existe de verdade. Para ele, não existe crime em falar besteiras, mesmo que elas desagradem. A questão é manter o equilíbrio para não censorar ideias sob o pretexto do “politicamente correto”.
Conselhos para Criadores e Humoristas
Para quem pensa em entrar no humor ou na produção audiovisual, Cláudio destaca a perseverança como essencial. O mundo pertence aos que aguentam e insistem apesar dos dificuldades. Ele lembra que gostar do que se faz ajuda a levar as horas de trabalho mais fácil e a aguentar os momentos ruins.
Além disso, ele aponta que a rotina e o estresse são inevitáveis na vida profissional, mesmo na arte. Organização, disciplina e perseguição pela qualidade tornam possível manter a carreira saudável. Estresse, para ele, também é combustível para não parar e evoluir.